Autor:
Edson Ferraz Evaristo de Paula
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Fonte: Divulgação |
Durante muitos anos a criação de ovinos e caprinos foi classificada como atividade secundária pelos produtores rurais. Partindo dessa perspectiva, não se criou hábito de realizar as devidas anotações referentes à situação dos rebanhos e aos manejos realizados com os mesmos. A ausência de dados produtivos dos segmentos da exploração e sua errônea interpretação, não permitem estimar corretamente a rentabilidade e a lucratividade da atividade dentro da propriedade, gerando muitas vezes dúvidas quanto a sua auto-suficiência. Assim, a falta de informação aliada aos erros de manejo e a desorganização da cadeia produtiva, contribuiu ao lento progresso dessas atividades no decorrer dos anos. Entretanto, com o constatado desenvolvimento tecnológico e produtivo, e com o potencial aumento do consumo de carne pela população, em especial de carne ovina, torna-se cada vez mais necessário que os sistemas de produção se comportem de maneira mais eficiente, para que a demanda seja atendida e as criações se tornem mais competitivas no cenário da pecuária nacional.
A escrituração zootécnica nada mais é que anotações referentes aos animais e tudo que lhes diz respeito. Trata-se do levantamento de dados de campo, através dos quais é possível que sejam estabelecidos os índices zootécnicos, fundamentais durante o processo de tomada de decisão na gestão pecuária. Em cabanhas, onde o produto da atividade é a venda de matrizes e reprodutores, a correta e efetiva realização da escrituração zootécnica da propriedade é essencial inclusive no momento do registro dos animais, sendo para algumas associações, pré-requisito no regulamento do serviço de registro genealógico das raças.
Os índices zootécnicos se relacionam diretamente à capacidade administrativa dos criadores e técnicos. A observação desses índices, quando corretamente inferidos, permite que seja obtida uma visão geral do comportamento dos diversos itens da exploração pecuária. Por exemplo, baixos índices produtivos podem ocorrer principalmente devido a problemas nutricionais, falhas no manejo sanitário e reprodutivo, retardo no crescimento, suplementação mineral errônea, entre outros. Dessa forma, com a informação nas mãos se tornam mais fáceis a identificação dos pontos fracos e a busca por soluções.
Para obtenção de índices zootécnicos condizentes com a realidade da fazenda é necessário garantir dois tipos de informações base: as quantitativas e as qualitativas. As informações quantitativas representam o estoque pecuário. Quantos animais possuo? Quais as raças presentes no meu plantel? Quantos animais por categoria? Com o correto dimensionamento do rebanho podemos elaborar com segurança o manejo zootécnico, produtivo e financeiro da fazenda. Já com as informações qualitativas podemos averiguar como anda a qualidade genética do rebanho, a sua situação sanitária, a reprodutiva e assim por diante.
Este tipo de informação deve ser elaborada de forma individual para cada categoria, assim as medidas corretivas são pontuais e mais efetivas. Serve como “diagnóstico” do rebanho e é a base de todo processo gerencial. Feito o diagnóstico é hora de listar os principais elementos necessários para o efetivo controle do rebanho. Podemos citar como exemplo as entradas (compras e nascimentos) e saídas (vendas, abates e mortes) de animais, as atividades de manejo sanitário (vacinas, vermifugações, curativos e doenças) e reprodutivo (estação de monta, diagnóstico de gestação, estação de parição, bem como as técnicas reprodutivas adotadas), pesagens e avaliações de escore de condição corporal, entre outros que se julguem necessários para cada propriedade (Figura 1). Sempre que possível, recomenda-se realizar manejo dos animais a cada 14-21 dias para obtenção regular dos dados.
Figura 1. Avaliação de grau Famacha® e pesagem (importante para obtenção do ganho de peso médio diário dos animais).
As anotações de controle parasitológico do rebanho também são interessantes, pois possibilitam o estabelecimento do controle adequado do uso de antiparasitários, reduzindo as vermifugações aleatórias e os gastos excessivos. Além desses benefícios, o correto controle parasitológico permite a seleção de animais resistentes a verminoses no rebanho.
A coleta dos dados no dia-a-dia deve ser de fácil execução e ocorrer de forma organizada. Para atender a esses requisitos é necessária a utilização de um método eficaz de identificação individual dos animais.
Para tal, podemos citar os convencionais brincos auriculares, os colares, as tatuagens e os mais recentes bólus intrarruminais (Figura 2). A escolha pelo método irá depender do sistema de produção e da viabilidade econômica em cada propriedade.
Figura 2. A esquerda brinco auricular e bólus intrarruminais; e a direita arames e placas de metal para confecção de colares de identificação.
Quanto à realização das anotações propriamente dita, pode-se fazer uso de livros para escrituração zootécnica, planilhas impressas separadamente ou mesmo em caderno de rascunhos. Vale ressaltar, que é sempre importante que se tome a precaução de passar os dados para um computador o quanto antes possível, assim evitamos perdas de informações ou equívocos com datas e procedimentos. Aconselhamos também realizar “backup” das informações mensalmente e, quando possível, elaborar relatórios de manejo e mantê-los impressos em arquivos. Alguns exemplos de fichas zootécnicas que podem ser tomadas como modelos são apresentados nas Figuras 3, 4, e 5.
Figura 3. Planilha de estação de monta e controle de cobertura.
Figura 4. Planilha de estação de nascimento (Parto S = simples ou G = gemelar; Sexo M = macho ou F= fêmea; E. P.= Eliminação de Placenta).
Figura 5. Planilha para manejo do rebanho
(ECC = Escore de Condição Corporal; FAM = Famacha)
Após a coleta, os dados podem ser processados de várias formas. Os índices zootécnicos podem ser calculados manualmente, com auxílio de planilhas eletrônicas e bancos de dados ou por programas de computador para gerenciamento de fazendas. De qualquer maneira, as principais fórmulas utilizadas para cálculo são basicamente as seguintes:
ÍNDICES PRODUTIVOS:Mortalidade de cordeiros: mede a porcentagem de mortes de animais do nascimento à desmama.
Mortalidade de animais: mede a percentagem de mortes de animais de determinada categoria.
Taxa de Desfrute: representa a produção do rebanho dentro do período avaliado. Não deve ser calculado em número de cabeças e sim em Kg de peso vivo.
ÍNDICES REPRODUTIVOS:Taxa de Fertilidade: é a relação do número de fêmeas em cobertura que ficaram prenhes durante o período de exposição reprodutiva.
Taxa de Natalidade: é a forma de medir o resultado das fêmeas em cobertura que pariram cordeiros vivos.
Taxa de Mortalidade Intra uterina (IU): representa o índice de perdas de animais que foram abortados, reabsorvidos ou natimortos.
Taxa de Desmame ou Eficiência Reprodutiva: é o mais importante na reprodução. Representa o total de animais desmamados em relação às fêmeas expostas em reprodução dentro de determinado ano agrícola.
Índice de prolificidade: indica o número de cordeiros nascidos por fêmea.
Destaca-se que o produtor rural pode melhorar a eficiência produtiva e o controle de custos com atitudes simples como anotar e acompanhar de maneira efetiva o seu rebanho. No próximo artigo abordaremos como os índices zootécnicos podem influenciar as análises de rentabilidade e lucratividade da produção.
Edson Ferraz Evaristo de Paula
Thayla Sara Soares Stivari
Maria Angela Machado Fernandes